Pesquisa · 23 out 2026
Relato e interpretação de resultados: CONSORT, plausibilidade, efeito absoluto e aplicabilidade
Conceito
Publicação em revista com revisão por pares não equivale a endosso dos resultados. Os investigadores conhecem as limitações dos dados melhor que revisores e leitores e têm a obrigação de relatá-las. Friedman organiza a interpretação em três perguntas: o ensaio funcionou como planejado, como os achados se comparam a outros estudos e quais as implicações clínicas.
Diretrizes de relato
O CONSORT reúne os itens essenciais de um relato de ensaio randomizado: objetivos, desenho, participantes, intervenções, desfechos primário e secundários, tamanho amostral, randomização, cegamento, análise estatística, dados basais, desfechos, danos, limitações e generalização. A versão revisada de 2001 tinha 22 itens e um fluxograma com o número de participantes por grupo em cada etapa, o que permite ao leitor verificar se a análise foi por intenção de tratar.
Friedman aponta dois termos usados de forma imprecisa. “Intenção de tratar” não se aplica quando participantes randomizados foram excluídos da análise, e “ITT modificada” é uma contradição. “Por protocolo” sugere a análise preferida pelo protocolo; Friedman prefere “em tratamento” (ver intenção de tratar).
Valor de p, estimativa pontual e intervalo de confiança devem ser relatados juntos para os resultados principais.
Viés de publicação e de relato
Ensaios negativos são publicados com menor frequência. Turner e colaboradores compararam 74 estudos de antidepressivos registrados na FDA. 31% não foram publicados. Na literatura publicada, 94% dos ensaios pareciam positivos; na análise da FDA, 51%.
Chan e colaboradores compararam protocolos e publicações de 102 ensaios aprovados em Copenhague. Metade dos desfechos de eficácia e 65% dos desfechos de dano por ensaio foram relatados de forma incompleta. Segundo Friedman, 62% dos ensaios tinham discrepância entre o desfecho primário do protocolo e o publicado.
O ensaio funcionou como planejado?
- Comparabilidade basal: descrição da randomização e da ocultação, tabela de características por grupo.
- Cegamento: muitos ensaios não permanecem cegos do início ao fim. A avaliação do sucesso do cegamento deve ocorrer no final.
- Adesão e tratamentos concomitantes: comparar a adesão observada com a assumida no cálculo amostral.
- Limitações: em um resultado neutro, considerar dose inadequada, habilidade técnica insuficiente, poder insuficiente, baixa adesão, desfechos pouco sensíveis e acaso.
- Dados faltantes: a análise de pior cenário atribui evento a todos os perdidos do grupo com menor incidência e nenhum evento aos perdidos do outro grupo. Se a conclusão se mantém, ela se fortalece.
- Múltiplas comparações e desfechos compostos: ver múltiplas comparações e desfechos compostos.
Plausibilidade e consistência
O resultado deve ser compatível com o mecanismo de ação conhecido e com outros estudos. A credibilidade aumenta com a proporção de estudos independentes de boa qualidade que chegam à mesma conclusão. Intervalos de confiança permitem verificar se resultados de ensaios diferentes são compatíveis entre si.
Efeito absoluto e relativo
A forma de apresentação muda a decisão. Forrow e colaboradores apresentaram os mesmos resultados a 235 médicos como mudança relativa e como mudança absoluta. 108 (46%) responderam de forma diferente, e 90% destes tinham maior inclinação a tratar após ler a mudança relativa. Naylor e colaboradores observaram as menores notas de efetividade quando o resultado foi apresentado como número necessário para tratar. Friedman recomenda relatar efeitos absolutos e relativos (ver RRR, RAR e NNT).
Aplicabilidade
A generalização para a população elegível é direta. A extrapolação para pacientes que não atenderiam aos critérios de inclusão depende de julgamento. Rothwell lista os determinantes da validade externa: cenário, seleção dos pacientes, características da intervenção e do controle, desfechos e eventos adversos. Questões adicionais incluem relação dose-efeito, efeito de classe e versões novas de dispositivos.
Erros comuns ao ler um artigo
- Ler apenas o resumo e a conclusão.
- Aceitar o rótulo “intenção de tratar” sem conferir o fluxograma.
- Avaliar o efeito apenas pela redução relativa.
- Ignorar a discrepância entre o desfecho registrado e o publicado.
- Aplicar o resultado a pacientes fora dos critérios de inclusão sem justificativa.
O que conferir ao ler um ensaio
- Registro do ensaio e concordância do desfecho primário registrado com o publicado.
- Fluxograma com números por grupo em cada etapa.
- Estimativa, intervalo de confiança e efeito absoluto do desfecho primário.
- Adesão, perdas de seguimento e análise de sensibilidade para dados faltantes.
- Número total de comparações feitas.
- Comparação com outros ensaios e plausibilidade biológica.
- Semelhança entre a população do ensaio e o paciente em questão.
Referências
- Friedman LM, Furberg CD, DeMets DL, Reboussin DM, Granger CB. Fundamentals of Clinical Trials. 5th ed. Springer; 2015. Capítulo 20, Reporting and Interpreting of Results.
- Moher D, Schulz KF, Altman DG. The CONSORT statement: revised recommendations for improving the quality of reports of parallel-group randomised trials. Lancet. 2001;357:1191-4. doi: 10.1016/S0140-6736(00)04337-3
- Turner EH, Matthews AM, Linardatos E, et al. Selective publication of antidepressant trials and its influence on apparent efficacy. N Engl J Med. 2008;358:252-60. doi: 10.1056/NEJMsa065779
- Chan AW, Hróbjartsson A, Haahr MT, et al. Empirical evidence for selective reporting of outcomes in randomized trials: comparison of protocols to published articles. JAMA. 2004;291:2457-65. doi: 10.1001/jama.291.20.2457
- Forrow L, Taylor WC, Arnold RM. Absolutely relative: how research results are summarized can affect treatment decisions. Am J Med. 1992;92:121-4. doi: 10.1016/0002-9343(92)90100-p
- Naylor CD, Chen E, Strauss B. Measured enthusiasm: does the method of reporting trial results alter perceptions of therapeutic effectiveness? Ann Intern Med. 1992;117:916-21. doi: 10.7326/0003-4819-117-11-916
- Rothwell PM. External validity of randomised controlled trials: “to whom do the results of this trial apply?”. Lancet. 2005;365:82-93. doi: 10.1016/S0140-6736(04)17670-8