Estatística · 23 out 2026
Múltiplas comparações e desfechos secundários
Conceito
Cada teste estatístico feito com tem 5% de chance de dar significativo quando não há efeito. Um ensaio raramente faz um teste só. Ele compara vários desfechos, olha subgrupos, combina desfechos em compostos e analisa os dados em mais de um momento. Cada comparação adicional aumenta a chance de pelo menos um resultado falso-positivo no estudo.
Friedman e colaboradores citam uma revisão de ensaios publicados em revistas médicas de grande circulação. A mediana foi de oito testes de significância por ensaio. Alguns ensaios relataram mais de vinte. Pocock e colaboradores examinaram 45 relatos de ensaios comparativos no BMJ, no Lancet e no NEJM. Os resumos tendiam a destacar os desfechos com maior significância estatística.
Como funciona
Com testes independentes, cada um a , a probabilidade de pelo menos um falso-positivo é:
Com 20 testes independentes a 0,05, espera-se cerca de um resultado significativo por acaso.
Os procedimentos de correção controlam o erro tipo I global (family-wise error rate):
- Bonferroni. Divide pelo número de comparações: . Com dez comparações a 0,05, cada teste precisa de . O método é conservador e reduz o poder.
- Holm. Ordena os valores de p do menor para o maior. O menor é comparado com , o seguinte com , e assim por diante. O teste para no primeiro passo não significativo. Nenhuma hipótese seguinte pode ser rejeitada depois disso.
- Hochberg. Procedimento em sentido inverso (step-up), com o mesmo objetivo de controle global.
- Teste hierárquico. Os desfechos são ordenados por prioridade científica no protocolo. Cada um só é testado se o anterior foi significativo.
Quando os testes são correlacionados, como ocorre com desfechos relacionados ou subgrupos sobrepostos, as correções padrão tendem a corrigir em excesso.
O custo da correção é o poder. Um limiar mais rígido exige amostra maior para detectar o mesmo efeito. Por isso o tamanho amostral costuma ser calculado para um único desfecho primário. Ensaios com mais de um desfecho coprimário precisam de um cálculo amostral próprio para essa situação.
Erros comuns ao ler um artigo
- Tratar um desfecho secundário significativo como confirmação, quando o primário foi neutro.
- Ler o valor de p de um subgrupo como evidência isolada de efeito naquele subgrupo.
- Ignorar quantos testes foram feitos e considerar só os que aparecem no resumo.
- Aceitar um procedimento de correção escolhido depois de ver os dados. Métodos diferentes podem dar conclusões diferentes com os mesmos dados.
- Somar significâncias de vários desfechos como se fossem evidências independentes.
O que conferir ao ler um ensaio
- O desfecho primário é único e foi definido no protocolo antes do início do estudo.
- O protocolo ou o plano de análise estatística define o método de controle da multiplicidade (Bonferroni, Holm, hierárquico ou outro).
- O artigo informa o número total de comparações feitas, e não só as apresentadas.
- Os desfechos secundários e os subgrupos estão rotulados como exploratórios quando não há controle de multiplicidade.
- Quando primário e secundários discordam em direção, os autores discutem a discordância em vez de destacar o secundário.
- O conjunto de desfechos aponta na mesma direção. A consistência entre desfechos relacionados pesa mais do que um valor de p isolado.
Aplicação em cardiologia
Ensaios cardiovasculares de grande porte costumam ter um desfecho primário composto e uma lista de secundários: morte cardiovascular, hospitalização, componentes isolados do composto. Quando o primário é neutro e um componente isolado tem , esse achado gera hipótese. Ele não estabelece benefício. Uma alternativa descrita por Friedman é exigir para desfechos secundários ou tratá-los explicitamente como exploratórios.
Referências
- Friedman LM, Furberg CD, DeMets DL, Reboussin DM, Granger CB. Fundamentals of Clinical Trials. 5th ed. Springer; 2015.
- Pocock SJ, Hughes MD, Lee RJ. Statistical problems in the reporting of clinical trials. A survey of three medical journals. N Engl J Med. 1987;317:426-32. doi: 10.1056/NEJM198708133170706
- Miller RG. Simultaneous Statistical Inference. 2nd ed. Springer; 1981. doi: 10.1007/978-1-4613-8122-8
- Holm S. A simple sequentially rejective multiple test procedure. Scand J Stat. 1979;6:65-70.
- Hochberg Y. A sharper Bonferroni procedure for multiple tests of significance. Biometrika. 1988;75:800-2. doi: 10.1093/biomet/75.4.800