Pesquisa · 23 out 2026
Fases dos ensaios clínicos: a pergunta de cada fase
Conceito
O desenvolvimento de um medicamento passa por etapas que respondem perguntas diferentes. A classificação clássica usa fases I a IV. A International Conference on Harmonisation (ICH) associa cada fase a um tipo de estudo: farmacologia humana (fase I), terapêutico exploratório (fase II), terapêutico confirmatório (fase III) e uso terapêutico (fase IV).
As fronteiras não são rígidas. Um estudo pode passar da fase I para a II, e estudos de farmacologia podem ocorrer em fases tardias. Intervenções cirúrgicas, comportamentais ou de estilo de vida raramente se encaixam nessa sequência. Por isso, Friedman e colaboradores preferem falar em estudos de fase inicial e ensaios de fase tardia.
Fase I: tolerabilidade e dose
A pergunta da fase I é quanto da droga pode ser administrado com segurança e como o organismo a processa. Os participantes costumam ser voluntários saudáveis ou pacientes sem resposta à terapia padrão. Os estudos estimam tolerabilidade, farmacocinética, farmacodinâmica, biodisponibilidade e distribuição.
Um objetivo frequente é a dose máxima tolerada. No esquema clássico 3+3, três participantes recebem uma dose. Sem toxicidade inaceitável, a dose sobe. Com toxicidade em um deles, mais três são tratados na mesma dose. Toxicidade adicional encerra a escalada. O desenho pressupõe que a dose máxima tolerada produz toxicidade inaceitável em cerca de um terço dos participantes. Métodos bayesianos, como o método de reavaliação contínua, atualizam a estimativa da dose a cada coorte.
Fase II: atividade biológica e decisão de prosseguir
A pergunta da fase II é se a droga tem atividade e se vale a pena levá-la a um ensaio confirmatório. O controle pode ser concorrente, histórico ou a comparação antes e depois do tratamento. Vários braços de dose são comuns.
Os participantes são selecionados com critérios estreitos. Os desfechos são biomarcadores, eventos clínicos menos graves ou sinais de segurança menores. A fase II não tem poder para desfechos clínicos maiores. Seu papel é refinar a probabilidade de sucesso na fase III.
Em oncologia, o desenho de Gehan em dois estágios ilustra a lógica. Para descartar uma taxa de resposta de 20% ou menos, entram 14 pacientes. Sem nenhuma resposta, a droga é abandonada. Com resposta, 10 a 20 pacientes adicionais refinam a estimativa. Friedman observa que estudos de fase II costumam ser menores do que deveriam.
Fase III: eficácia confirmatória
A pergunta da fase III é se a intervenção melhora desfechos clínicos em comparação com um controle, com que magnitude e com que efeitos adversos. É o ensaio randomizado e controlado que fundamenta a prática e o registro.
Mesmo grandes, esses ensaios têm limites. O seguimento é curto em relação ao uso crônico. O tamanho é de centenas a dezenas de milhares de participantes, enquanto o uso pós-registro chega a milhões. Eventos adversos raros ou tardios podem passar despercebidos.
Os ensaios de fase tardia também corrigem práticas consolidadas. O CAST testou a supressão de extrassístoles ventriculares após infarto. Com encainida ou flecainida, houve 43 mortes arrítmicas contra 16 com placebo. O CRASH randomizou 10.008 adultos com traumatismo cranioencefálico. A mortalidade em 2 semanas foi 21,1% com corticosteroide e 17,9% com placebo (RR 1,18; IC 95% 1,09–1,27). No AIM-HIGH (3.414 pacientes) e no HPS2-THRIVE (25.673 pacientes), a niacina não reduziu eventos vasculares em pacientes tratados com estatina.
Fase IV: uso em larga escala e segurança tardia
A pergunta da fase IV é o que acontece quando a intervenção é usada em populações amplas, por tempo prolongado. Inclui estudos pós-registro e vigilância. Exemplos citados por Friedman: os inibidores da COX-2 mostraram problemas cardiovasculares em ensaios grandes de prevenção de câncer de cólon; as tiazolidinedionas se associaram a insuficiência cardíaca após a comercialização.
Dispositivos e procedimentos exigem atenção adicional. O resultado depende da habilidade do operador, e os ensaios costumam envolver operadores experientes.
Erros comuns ao ler um artigo
- Tratar o resultado de fase II, com biomarcador como desfecho, como evidência de benefício clínico.
- Supor que a ausência de eventos adversos graves na fase III exclui eventos raros ou tardios.
- Extrapolar a população restrita da fase II para a prática geral.
- Comparar estudos de fase I ou II sem controle concorrente como se fossem ensaios randomizados.
- Ignorar que o registro pode se basear em desfecho substituto e em seguimento curto.
O que conferir ao ler um ensaio
- A fase declarada e se o desenho corresponde à pergunta dessa fase.
- O tipo de controle: concorrente randomizado, histórico ou antes e depois.
- O desfecho primário: clínico ou biomarcador.
- A duração do seguimento em relação ao tempo de uso previsto na prática.
- O tamanho do ensaio e a capacidade de detectar eventos adversos infrequentes.
- Se há estudos pós-registro ou de fase IV para a mesma intervenção.
Textos relacionados: poder e taxa de eventos, análises interinas.
Referências
- Friedman LM, Furberg CD, DeMets DL, Reboussin DM, Granger CB. Fundamentals of Clinical Trials. 5th ed. Springer; 2015. Capítulo 1, Introduction to Clinical Trials.
- Echt DS, Liebson PR, Mitchell LB, Peters RW, Obias-Manno D, Barker AH, et al. Mortality and morbidity in patients receiving encainide, flecainide, or placebo. The Cardiac Arrhythmia Suppression Trial. N Engl J Med. 1991;324(12):781-8. doi: 10.1056/NEJM199103213241201
- Roberts I, Yates D, Sandercock P, Farrell B, Wasserberg J, Lomas G, et al. Effect of intravenous corticosteroids on death within 14 days in 10008 adults with clinically significant head injury (MRC CRASH trial): randomised placebo-controlled trial. Lancet. 2004;364(9442):1321-8. doi: 10.1016/S0140-6736(04)17188-2
- AIM-HIGH Investigators; Boden WE, Probstfield JL, Anderson T, Chaitman BR, Desvignes-Nickens P, et al. Niacin in patients with low HDL cholesterol levels receiving intensive statin therapy. N Engl J Med. 2011;365(24):2255-67. doi: 10.1056/NEJMoa1107579
- HPS2-THRIVE Collaborative Group; Landray MJ, Haynes R, Hopewell JC, Parish S, Aung T, et al. Effects of extended-release niacin with laropiprant in high-risk patients. N Engl J Med. 2014;371(3):203-12. doi: 10.1056/NEJMoa1300955