Pesquisa · 23 out 2026
Ética em ensaios clínicos: equipoise, consentimento, conflito de interesse e viés de publicação
Conceito
Um ensaio clínico tem obrigações com os participantes e com a ciência. Friedman adota sete requisitos éticos: valor social ou científico, validade científica, seleção justa dos participantes, relação benefício-risco favorável, revisão independente, consentimento informado e respeito aos participantes incluídos.
Esses requisitos têm consequências metodológicas. Um ensaio pequeno demais para responder sua pergunta expõe participantes a risco sem produzir conhecimento. Um ensaio não publicado tem o mesmo efeito.
Equipoise
A randomização é aceitável quando há incerteza real sobre qual tratamento é melhor. Exigir que cada investigador não tenha nenhuma preferência inviabiliza a maioria dos ensaios. Freedman propôs a equipoise clínica: o requisito é satisfeito quando há incerteza genuína na comunidade médica especializada sobre o tratamento preferido, não necessariamente no investigador individual.
A equipoise pode mudar durante o ensaio. No ISIS-2, com 17.187 pacientes com suspeita de infarto, a estreptoquinase reduziu a mortalidade vascular em 5 semanas de 12,0% para 9,2%. Durante o recrutamento, o comitê de monitoramento informou aos investigadores que havia prova de benefício para pacientes tratados até 4 horas após o início da dor. A randomização continuou para médicos que permaneciam incertos. Friedman registra que muitos defenderiam suspender a inclusão nesse subgrupo.
Pela mesma lógica, um ensaio desenhado para provar dano é inaceitável. Após a interrupção de dois braços do CAST, os investigadores recusaram a proposta de testar a quinidina para demonstrar dano.
Placebo e escolha do controle
Se existe tratamento que salva vidas, comparar uma nova droga com placebo em lugar dele é antiético. Placebo é aceitável quando é adicionado ao tratamento padrão, quando a terapia existente não tem benefício comprovado ou é mal tolerada, ou quando a suspensão causa apenas desconforto leve e tratável.
O placebo também tem valor informativo. Ensaios abertos de denervação renal mostraram queda de 22 a 32 mmHg na pressão sistólica. No SYMPLICITY HTN-3, com procedimento simulado e 535 pacientes, a queda foi de 14,1 mmHg com denervação e 11,7 mmHg com o procedimento simulado, diferença de 2,4 mmHg.
Consentimento informado
Consentimento é um processo, não a assinatura de um formulário. Os elementos básicos incluem: declaração de que se trata de pesquisa, objetivos, procedimentos, riscos e benefícios previsíveis, alternativas, confidencialidade e direito de sair sem prejuízo.
A falha mais citada é a concepção terapêutica equivocada: o participante entende a pesquisa como tratamento. Isso ocorre em doenças graves sem alternativa e quando o médico assistente é também o investigador.
O SUPPORT randomizou 1.316 prematuros extremos para alvos de saturação de 85–89% ou 91–95%. O alvo menor reduziu retinopatia e aumentou a mortalidade antes da alta. O órgão regulador americano concluiu que o termo de consentimento deveria ter mencionado o possível aumento de mortalidade.
Há situações sem consentimento prévio, como parada cardíaca, com regras específicas: consulta à comunidade, comitê de segurança e consentimento posterior.
Conflito de interesse
Conflitos financeiros e intelectuais podem enviesar desenho, condução, análise e publicação. Friedman considera que declaração e supervisão do comitê de ética bastam para estudos iniciais, mas não para ensaios de fase tardia. Nestes, a análise deve ser feita ou validada por grupo independente do patrocinador.
Heres e colaboradores analisaram comparações diretas entre antipsicóticos de segunda geração patrocinadas pela indústria. O resultado favoreceu a droga do patrocinador em cerca de 90% dos estudos, inclusive quando as mesmas drogas eram comparadas por patrocinadores diferentes.
Viés de publicação
Turner e colaboradores compararam 74 ensaios de antidepressivos registrados na FDA com a literatura. Dos 38 com resultado positivo segundo a FDA, 37 foram publicados. Dos 36 negativos ou questionáveis, 22 não foram publicados e 11 foram publicados de forma que sugeria resultado positivo. O registro prospectivo em bases públicas permite rastrear ensaios não publicados.
Erros comuns ao ler um artigo
- Aceitar a comparação com placebo sem verificar se havia tratamento eficaz disponível.
- Considerar o consentimento adequado só porque o artigo cita aprovação do comitê de ética.
- Ignorar quem analisou os dados e quem redigiu o manuscrito.
- Interpretar uma metanálise sem considerar ensaios registrados e não publicados.
- Tomar o resultado de ensaio aberto com desfecho subjetivo como estimativa do efeito real.
O que conferir ao ler um ensaio
- Se havia incerteza na comunidade sobre o tratamento comparado na época do início.
- O controle escolhido e se ele priva participantes de tratamento eficaz.
- Número de registro e concordância entre desfechos registrados e publicados.
- Fonte de financiamento, papel do patrocinador e quem fez a análise.
- Se a análise foi validada por grupo independente.
- Como o consentimento foi obtido em populações vulneráveis ou em emergência.
Textos relacionados: análises interinas, metanálise.
Referências
- Friedman LM, Furberg CD, DeMets DL, Reboussin DM, Granger CB. Fundamentals of Clinical Trials. 5th ed. Springer; 2015. Capítulo 2, Ethical Issues.
- Freedman B. Equipoise and the ethics of clinical research. N Engl J Med. 1987;317(3):141-5. doi: 10.1056/NEJM198707163170304
- ISIS-2 (Second International Study of Infarct Survival) Collaborative Group. Randomised trial of intravenous streptokinase, oral aspirin, both, or neither among 17,187 cases of suspected acute myocardial infarction: ISIS-2. Lancet. 1988;2(8607):349-60. doi: 10.1016/S0140-6736(88)92833-4
- Bhatt DL, Kandzari DE, O’Neill WW, D’Agostino R, Flack JM, Katzen BT, et al. A controlled trial of renal denervation for resistant hypertension. N Engl J Med. 2014;370(15):1393-401. doi: 10.1056/NEJMoa1402670
- SUPPORT Study Group of the Eunice Kennedy Shriver NICHD Neonatal Research Network; Carlo WA, Finer NN, Walsh MC, Rich W, Gantz MG, et al. Target ranges of oxygen saturation in extremely preterm infants. N Engl J Med. 2010;362(21):1959-69. doi: 10.1056/NEJMoa0911781
- Heres S, Davis J, Maino K, Jetzinger E, Kissling W, Leucht S. Why olanzapine beats risperidone, risperidone beats quetiapine, and quetiapine beats olanzapine: an exploratory analysis of head-to-head comparison studies of second-generation antipsychotics. Am J Psychiatry. 2006;163(2):185-94. doi: 10.1176/appi.ajp.163.2.185
- Turner EH, Matthews AM, Linardatos E, Tell RA, Rosenthal R. Selective publication of antidepressant trials and its influence on apparent efficacy. N Engl J Med. 2008;358(3):252-60. doi: 10.1056/NEJMsa065779