Pesquisa · 23 out 2026
Controles históricos e estudos não randomizados
Conceito
Um ensaio precisa de um grupo de comparação. A randomização é o modo preferido de formá-lo. Ela remove a influência do investigador e do participante sobre quem recebe a intervenção, tende a equilibrar fatores prognósticos medidos e não medidos e dá base aos testes estatísticos sem suposições adicionais sobre a comparabilidade dos grupos.
Há duas alternativas principais. No controle concorrente não randomizado, os grupos são tratados no mesmo período, mas a alocação depende de instituição, preferência do médico ou escolha do paciente. No controle histórico, uma série nova de pacientes recebe a intervenção e é comparada a uma série anterior tratada de outra forma. Esse controle é, por definição, não randomizado e não concorrente.
Controle concorrente não randomizado
A fraqueza central é a falta de garantia de comparabilidade. O investigador precisa supor que conhece e mediu todos os fatores prognósticos importantes. Pareamento por mais de alguns fatores é impraticável. Em estudos pequenos, diferenças basais reais passam sem detecção. Em estudos grandes, a incerteza sobre fatores não medidos permanece. Seleção sutil por parte do médico, inclusive inconsciente, pode direcionar pacientes de prognóstico diferente para cada grupo.
Controle histórico
O argumento a favor é ético e prático: todos os novos participantes recebem a intervenção, o recrutamento leva cerca de metade do tempo e o grupo tratado pode ser maior. Os dados de controle vêm da literatura ou de arquivos e prontuários de estudos anteriores.
Os problemas são de três tipos.
- Mudança na população. No PRAISE-1, o anlodipino reduziu mortalidade no subgrupo com cardiomiopatia não isquêmica. O PRAISE-2, com o mesmo protocolo e os mesmos investigadores, incluiu só esse perfil e não confirmou o benefício (HR 1,09; IC 95% 0,92 a 1,29). O grupo placebo do PRAISE-2 teve mortalidade menor que o placebo não isquêmico do PRAISE-1, e a análise por covariáveis não explicou a diferença.
- Mudança de critérios e de manejo. No Coronary Drug Project, a mortalidade anual esperada no controle era 6%, baseada em pacientes pós-infarto pouco selecionados. A observada foi cerca de 4%. Com controle histórico, uma redução de 33% teria sido atribuída aos tratamentos. Mudanças em critérios diagnósticos (troponina), em definições de caso (AIDS, 1993) e em revisões da CID alteram frequência e prognóstico registrados.
- Qualidade dos dados. Dados históricos são coletados de forma não uniforme, com fatores prognósticos ausentes.
Pocock identificou 19 casos em que a mesma intervenção foi usada em dois ensaios consecutivos na mesma instituição. As diferenças de mortalidade entre esses grupos tratados igualmente variaram de −46% a +24%, e 4 das 19 foram significativas a 5%.
Evidência empírica
Sacks e colaboradores reuniram seis terapias avaliadas por 50 ensaios randomizados e 56 com controle histórico. A terapia foi considerada melhor em 79% dos estudos com controle histórico e em 20% dos randomizados. A diferença veio sobretudo dos grupos controle: os controles históricos tiveram desfechos piores. Ajuste por fatores prognósticos não mudou o resultado.
Na revisão de anticoagulação no infarto agudo, 15 de 18 estudos com controle histórico e 5 de 8 com controle concorrente não randomizado favoreceram o tratamento. Os estudos não randomizados agrupados sugeriram redução de mortalidade de cerca de 50%; os seis randomizados agrupados, cerca de 20%.
Desenhos híbridos e bancos de dados
Pocock propôs combinar controles históricos e randomizados, alocando uma fração menor ao controle. Exige mesmos critérios de entrada e avaliação, mesmo centro e dados recentes. Se o viés dos controles históricos for grande, pode ser necessário randomizar mais participantes do que num ensaio totalmente randomizado.
Registros e prontuários eletrônicos ampliam a população estudada e ajudam a detectar eventos adversos. Dependem do modelo de análise e sofrem com viés de indicação, dados faltantes e múltiplas comparações. Bailar e colaboradores listam o que fortalece um estudo sem controle interno: hipótese e plano de análise definidos antes dos dados.
Há exceções em que o efeito é tão grande que dispensa comparação concorrente, como penicilina na pneumonia pneumocócica e tratamento da hipertensão maligna.
Erros comuns ao ler um artigo
- Aceitar a comparação com “taxa esperada” ou com série anterior como estimativa de efeito.
- Supor que ajuste por covariáveis corrige diferenças entre épocas ou instituições.
- Ignorar mudanças de critério diagnóstico, codificação ou tratamento de base entre os períodos.
- Tratar resultado de subgrupo como base para o próximo ensaio sem considerar que a população pode mudar (PRAISE).
- Tomar efeitos grandes de estudos não randomizados como sinal de robustez.
O que conferir ao ler um ensaio
- Como o grupo controle foi formado e em que período.
- Se critérios de inclusão, definições de desfecho e métodos de avaliação foram os mesmos nos dois grupos.
- Se houve mudança de tratamento de base, critério diagnóstico ou codificação entre as épocas.
- Se hipótese e plano de análise foram definidos antes da coleta.
- Se a taxa de eventos do controle é coerente com ensaios randomizados contemporâneos.
Temas relacionados: ocultação da alocação, subgrupos, confundidores e DAG.
Referências
- Friedman LM, Furberg CD, DeMets DL, Reboussin DM, Granger CB. Fundamentals of Clinical Trials. 5th ed. Springer; 2015. Capítulo 5, Basic Study Design.
- Sacks H, Chalmers TC, Smith H Jr. Randomized versus historical controls for clinical trials. Am J Med. 1982;72(2):233-40. doi: 10.1016/0002-9343(82)90815-4
- Chalmers TC, Matta RJ, Smith H Jr, Kunzler AM. Evidence favoring the use of anticoagulants in the hospital phase of acute myocardial infarction. N Engl J Med. 1977;297(20):1091-6. doi: 10.1056/NEJM197711172972004
- Packer M, O’Connor CM, Ghali JK, et al. Effect of amlodipine on morbidity and mortality in severe chronic heart failure. N Engl J Med. 1996;335(15):1107-14. doi: 10.1056/NEJM199610103351504
- Packer M, Carson P, Elkayam U, et al. Effect of amlodipine on the survival of patients with severe chronic heart failure due to a nonischemic cardiomyopathy: results of the PRAISE-2 study. JACC Heart Fail. 2013;1(4):308-14. doi: 10.1016/j.jchf.2013.04.004
- Coronary Drug Project Research Group. Clofibrate and niacin in coronary heart disease. JAMA. 1975;231(4):360-81. PMID: 1088963
- Pocock SJ. The combination of randomized and historical controls in clinical trials. J Chronic Dis. 1976;29(3):175-88. doi: 10.1016/0021-9681(76)90044-8
- Bailar JC 3rd, Louis TA, Lavori PW, Polansky M. Studies without internal controls. N Engl J Med. 1984;311(3):156-62. doi: 10.1056/NEJM198407193110306